BOX DE FACTOS
  • 1932: Portugal entra no "tempo Salazar" com fragilidade financeira e um país maioritariamente rural e pouco escolarizado; o Censo de 1930 apontava níveis de analfabetismo muito elevados (cerca de 68,1%). 0
  • 1970: ainda havia 25,7% de analfabetos (cerca de 1,8 milhões), segundo síntese estatística da Pordata/FFMS. 1
  • 1970: mortalidade infantil de 38‰ (por 1.000 nados-vivos). 2
  • 1933–1974: o regime institucionaliza a censura e reprime oposição; há memória documentada de perseguição, prisão e tortura política. 3
  • Economia: há crescimento forte nas décadas finais do Estado Novo (sobretudo pós-1950), mas a saída de 1974 ocorre com um país ainda atrasado em indicadores sociais quando comparado com a Europa Ocidental. (Séries longas e contexto: Maddison/OWID; sínteses históricas). 4

1932–1974: O Portugal que Salazar recebeu — e o Portugal que deixou

Há comparações que são como lâminas: não servem para venerar nem para insultar — servem para cortar a névoa. Em 1932, o país era uma aldeia cansada com contas por pagar; em 1974, era uma casa com mais paredes, mas com portas fechadas por dentro.

1) O país herdado em 1932: pobreza estrutural e uma nação por alfabetizar

Em 1932, o regime entra em cena num país profundamente rural, com fraca escolarização e com grandes carências de base. O retrato educacional do início do século XX é brutal: o próprio recenseamento de 1930 é frequentemente citado como evidência de um analfabetismo massivo (na ordem dos dois terços da população). 5

Isto não é detalhe — é arquitectura. Um país com escolaridade mínima tem menos produtividade, menos mobilidade social, menos imprensa crítica, menos capacidade de exigir contas. A "paz social" pode parecer ordem; muitas vezes é apenas silêncio.

2) O que mudou até 1974: modernização real, mas desigual — e tardia

Entre os anos 50 e o início dos 70 há crescimento económico significativo (o período de convergência parcial com a Europa é reconhecido em sínteses de história económica). As séries de longo prazo usadas em comparações internacionais mostram esse impulso no pós-guerra. 6

Mas há um ponto de honestidade histórica: crescer não é o mesmo que transformar. O crescimento foi acompanhado por assimetrias regionais e sociais e, sobretudo, por uma modernização educativa e social insuficiente para o padrão europeu. O próprio facto de, em 1970, ainda existir 25,7% de analfabetos diz muito sobre o atraso acumulado. 7

3) Saúde e condições de vida: ganhos, mas com um preço de tempo perdido

Na saúde pública há evolução de longo curso, mas em 1970 a mortalidade infantil ainda era 38 por mil — um indicador duro, que funciona como "radiografia" da nutrição, saneamento, acesso a cuidados e literacia das famílias. 8

E repare-se no contraste que a própria Pordata/FFMS sublinha: em 1970 uma parte relevante dos partos não ocorria em estabelecimentos de saúde, e poucos anos depois essa realidade começa a mudar. 9 Isto ajuda a perceber que 1974 não é "fim de uma linha": é o ponto em que se abre uma comporta.

4) "Direito comparado" do essencial: Estado forte vs. direitos fracos

Se compararmos "ordem política" em vez de "obras", a diferença é menos fotogénica — mas mais determinante. No Estado Novo, a censura não é um acidente: é um mecanismo. Há registo consistente de livros censurados e proibidos entre 1933 e 1974, precisamente porque a palavra livre é o inimigo natural de qualquer poder que não queira ser auditado. 10

E o reverso da censura é a intimidação. A memória institucional e museológica do período sublinha perseguição, prisão e tortura política como parte da máquina repressiva, não como "excepção folclórica". 11

Traduzindo para linguagem simples: um país pode erguer estradas, barragens e ministérios — e, ao mesmo tempo, manter o cidadão em regime de menoridade. A modernização material, sem direitos, vira facilmente modernização para alguns.

5) O Portugal deixado em 1974: "melhor" do que em 1932, mas longe do que podia ter sido

O balanço comparado (1932 vs. 1974) é, por isso, duplo: sim, o país de 1974 tem mais estrutura económica e mais densidade administrativa do que o país de 1932; não, não chega a 1974 como um país socialmente robusto, educacionalmente moderno e politicamente livre. A persistência de elevadas taxas de analfabetismo até 1970 é uma prova estatística difícil de contornar. 12

Se quisermos uma frase de síntese — sem propaganda e sem nostalgia: Salazar recebeu um país pobre e atrasado; deixou um país menos pobre, ainda atrasado — e com uma factura democrática por pagar.

6) Nota final: história comparada não é tribunal — é bússola

A história comparada serve para impedir dois vícios: o da hagiografia (transformar o passado em santo) e o do insulto fácil (transformar o passado em caricatura). Em Portugal, onde a discussão pública oscila entre amnésia e gritaria, este exercício é uma forma de recuperar o óbvio: um país constrói-se com educação, saúde, instituições e liberdade — não com medo.

E quando hoje falamos de cleptocracias, capturas do Estado e desigualdade estrutural, a lição útil não é "voltar atrás": é perceber como a falta de escrutínio — ontem pela censura, hoje por redes de influência e opacidade — apodrece o futuro por dentro.

Texto da autoria de Francisco Gonçalves, com a colaboração na investigação e selecção de fontes de referência de : Augustus Veritas

Referências & Leituras (fontes verificáveis)
  • Pordata / Fundação Francisco Manuel dos Santos — "50 anos de Democracia em números" (indicadores de analfabetismo e saúde; síntese estatística). 13
  • Pordata — página "Taxa de mortalidade infantil (‰)" (metainformação e ligação a fontes INE/Eurostat). 14
  • Our World in Data (Maddison Project Database) — séries históricas comparadas de PIB per capita (contexto de longo prazo). 15
  • Gulbenkian — lista e enquadramento de livros censurados/proibidos no Estado Novo (1933–1974). 16
  • Museu do Aljube — enquadramento museológico sobre repressão, prisão e tortura no período ditatorial. 17
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