BOX DE FACTOS

  • Estudos recentes sugerem que traços psicopáticos são várias vezes mais frequentes em cargos de topo (4 % a 12 % dos CEOs e dirigentes) do que na população geral, onde rondam 1 %. 0
  • Investigadores em ciência política mostram que líderes com combinações de narcisismo, maquiavelismo e psicopatia (a chamada Dark Triad) aumentam a polarização e fragilizam a democracia. 1
  • Na década passada, dezenas de psiquiatras e psicólogos americanos fizeram alertas públicos sobre o risco emocional de certas figuras políticas de topo, reabrindo o debate sobre a chamada Goldwater Rule, que limita diagnósticos públicos à distância. 2
  • A literatura sobre "psicopatia institucional" descreve organizações e regimes capturados por personalidades frias, manipuladoras e sem empatia, capazes de normalizar a destruição como rotina administrativa. 3
  • Apesar de existirem metodologias para avaliar perfis de liderança à distância, continua a não haver, na maioria das democracias, qualquer tipo de teste psicológico obrigatório para quem quer controlar exércitos, orçamentos de Estado ou armas nucleares. 4

Testes Psicológicos para Governantes: Quem Carrega o Mundo no Bolso Não Pode Voar sem Exame Médico

Num planeta armado até aos dentes, deixar que qualquer ego inflamado, sem avaliação mínima de sanidade e empatia, controle códigos nucleares, economias e redes sociais globais é mais do que irresponsável: é suicidário. Está na altura de perguntarmos, com brutal simplicidade: por que motivo se exige exame psicotécnico a um motorista de autocarro, mas não a quem conduz a Humanidade inteira?

A piada negra do século: tudo testado, menos quem manda

Um piloto de avião passa por exames médicos e psicológicos rigorosos. Um maquinista de comboio também. Até para conduzir um pesado de mercadorias se exige avaliação de aptidões, renovada de tempos a tempos. Ninguém acha isto exagero: faz parte do contrato com a vida dos outros.

Agora levantemos a cabeça: quem decide se um país entra ou não em guerra, assina ou recusa tratados climáticos, liberaliza armas, corta nos sistemas de saúde, controla arsenais nucleares ou desmantela direitos fundamentais… esses entram pela porta grande do poder com um único requisito formal: ganhar uma eleição, comandar um golpe ou comprar uma empresa estratégica. Sem exame emocional. Sem crivo de empatia. Sem qualquer teste que distinga um líder lúcido de um psicopata funcional de fato bem passado.

É a grande piada negra da nossa época: tudo é regulado, menos o perfil psicológico de quem segura o volante colectivo.

Psicopatas de gabinete: o perigo frio e sorridente

A psicopatia, no sentido clínico, não é sinónimo de loucura barulhenta. É, muitas vezes, o contrário: frieza calculada, charme superficial, inteligência instrumental, ausência de remorso, incapacidade de sentir genuinamente a dor alheia. É o predador social perfeito, adaptado a estruturas hierárquicas onde conta mais subir do que servir.

Não espanta, por isso, que a investigação detecte taxas de traços psicopáticos muito superiores à média entre gestores de topo, dirigentes financeiros e altos quadros empresariais. 5 O mesmo perfil aparece, com variações, em líderes políticos carismáticos que transformam a política num espectáculo narcísico, onde tudo é palco, vingança, triunfo e humilhação.

Estes indivíduos não chegam ao topo apesar da sua psicopatia; chegam muitas vezes precisamente por causa dela. São destemidos até à inconsciência, mentem sem pestanejar, manipulam afectos, exploram medos, prometem grandeza fácil. Num mercado político e mediático viciado em choques e emoções fortes, brilham como foguetões — e deixam atrás de si crateras.

O caso Trump e o silêncio tenso da psiquiatria

A presidência de Donald Trump foi um laboratório extremo desta tensão entre poder e sanidade. Um conjunto significativo de psiquiatras e psicólogos americanos rompeu o silêncio, publicando cartas e livros a alertar para aquilo que viam como um padrão perigoso de instabilidade emocional, narcisismo extremo e desrespeito por normas democráticas. 6

Em sentido contrário, a chamada Goldwater Rule — uma norma ética da Associação Psiquiátrica Americana, criada após um episódio em 1964 — proíbe os psiquiatras de emitirem diagnósticos públicos sobre figuras que não avaliaram directamente. 7 A regra protege, com razão, contra o uso abusivo da psiquiatria como arma política. Mas também levanta uma questão incómoda: até que ponto o dever profissional de não especular colide com o dever cívico de alertar para perigos óbvios quando um líder com acesso a armas nucleares exibe, em directo, sinais de descontrolo?

Sem violar regras nem transformar este texto em diagnóstico à distância, fica uma constatação simples: se existissem testes psicológicos rigorosos, transparentes e obrigatórios para quem aspira a cargos desse nível, grande parte do debate sobre Trump teria sido substituída por factos clínicos objectivos. E muitos cidadãos, ao olharem para os resultados, teriam compreendido melhor o risco de entregar a um temperamento explosivo a capacidade de acender rastilhos globais.

Democracia não é roleta russa emocional

A democracia assenta na livre escolha de líderes. Mas escolha livre não significa escolha cega. Exigimos transparência financeira, declaração de interesses, registos criminais, debates públicos. Porque não exigir também uma verificação mínima da saúde psicológica e da capacidade empática de quem pede um mandato para mandar na vida de milhões?

Não se trata de excluir pessoas por terem sofrido depressões, ansiedades ou outras dores humanas. Essas, quando tratadas, podem até tornar um líder mais sensível e atento. O alvo dos testes não é a fragilidade; é a crueldade fria. O que está em causa é detectar perfis com tendência para mentira patológica, ausência total de remorso, prazer em humilhar, apetência pelo risco extremo sem cálculo das consequências.

Uma democracia que se recusa a olhar para isto de frente está, na prática, a brincar à roleta russa emocional com o seu próprio povo.

Como poderiam ser esses testes? Três linhas vermelhas

Qualquer proposta séria tem de fugir tanto à ingenuidade como ao abuso. Não se trata de entregar a psiquiatria ao poder, nem de permitir que governos usem diagnósticos como arma contra opositores incómodos. Pelo contrário: os testes deveriam ser desenhados com garantias máximas de independência e transparência.

Primeira linha vermelha: os critérios têm de ser públicos, discutidos por especialistas de diferentes áreas (psiquiatria, psicologia, ética, direito, ciência política) e sujeitos a escrutínio internacional. Nada de "relatórios secretos" convenientes.

Segunda linha vermelha: os testes não avaliam ideologia, avaliam risco. Não perguntam se o candidato é de esquerda, direita ou marciano; perguntam se é capaz de sentir empatia, de lidar com frustração sem violência, de distinguir realidade de fantasia conspirativa, de respeitar limites institucionais.

Terceira linha vermelha: o resultado não pode ser usado para silenciar; apenas para estabelecer mínimos. Tal como um exame médico pode impedir alguém de pilotar um avião mas não o impede de ser escritor, um teste psicológico pode impedir alguém de comandar exércitos, sem lhe retirar direitos civis básicos.

Do culto do "líder forte" ao respeito pelo "líder são"

O século XX apaixonou-se pelo mito do "líder forte": vozes tonitruantes, mãos firmes, promessas de ordem pela força. Sabemos bem onde esse mito nos levou: guerras mundiais, genocídios, regimes de terror. O século XXI tem a oportunidade de trocar esse fetiche perigoso por um ideal menos excitante mas infinitamente mais civilizado: o do líder são.

O líder são não precisa de gritar. Dorme à noite. Não alimenta o ódio; desarma-o. Não usa minorias como alvo, nem a mentira sistemática como arma. A verdadeira coragem política, hoje, não está em ameaçar inimigos em discursos inflamados, mas em proteger, com serenidade obstinada, a frágil trama da convivência humana.

Testes psicológicos obrigatórios para cargos de grande poder não são garantia de paraíso na Terra. Mas podem, pelo menos, reduzir a probabilidade de voltarmos a pôr a História nas mãos de personalidades que vêem o mundo como palco privado para o seu drama interior.

Epílogo: a pergunta que fica

A pergunta, no fim, é brutal e simples: se nem todos são considerados aptos para conduzir um autocarro com trinta pessoas, como podemos aceitar que qualquer um, por mais desequilibrado que pareça, possa conduzir um país com milhões, um bloco como a União Europeia ou uma potência nuclear com poder de apagar cidades do mapa?

Um futuro minimamente lúcido vai olhar para a nossa época com incredulidade: "Eles tinham ciência, tinham dados, tinham exemplos trágicos, e mesmo assim deixavam que o acaso emocional escolhesse quem mandava." Talvez seja tempo de começarmos a escrever, desde já, a versão menos vergonhosa dessa memória. Leitura aconselhada : O livro Democracy Direct – The Awakening of the People

Escrito em co-autoria por Francisco Gonçalves & Augustus Veritas [Assistente AI], em defesa da ideia herética de que poder sem exame de humanidade é risco que uma espécie adulta já não pode aceitar.
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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