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- O imposto de selo tem raízes históricas antigas, associado em Portugal ao século XVII.
- Incide sobre actos, contratos, documentos, operações financeiras e certas transmissões.
- Surge frequentemente em crédito à habitação, garantias bancárias, seguros e escrituras.
- É um imposto de cobrança simples e silenciosa, muitas vezes diluído em processos maiores.
- Funciona como símbolo de uma cultura fiscal baseada no carimbo e na formalidade.
Portugal: um reinado medieval
O carimbo que atravessou os séculos
Há uma espécie de atavismo fiscal em Portugal que resiste a todos os discursos de modernidade. Mudam-se os governos, mudam-se os slogans, mudam-se os mandatos, mas certos mecanismos sobrevivem como se fossem parte do mobiliário da nação. O imposto de selo é um desses móveis pesados, escurecidos pelo tempo, sempre no mesmo sítio, sempre com a mesma função: cobrar o acto, não a criação.
A sua origem histórica, evocada como herança de um Estado antigo, é mais do que uma curiosidade de arquivo. É um sinal. Um país que mantém um tributo com esta lógica de "taxa sobre o gesto" conserva, no fundo do sistema, uma mentalidade de carimbo régio. Como se a vida civil precisasse de pagar licença para existir.
A casa como penitência estrutural
A habitação deveria ser o território mínimo da dignidade. Em vez disso, tornou-se um corredor tributário: IMT, registos, emolumentos e, no meio do ritual, o selo a confirmar que até o sonho tem bilhete de entrada. Não é um golpe único: é uma sucessão de pequenas lâminas, uma pedagogia de obediência fiscal que começa no notário e termina no cidadão que aprende a não perguntar.
O crédito como culpa oficial
Quando uma família pede empréstimo, fá-lo porque o salário não acompanha o custo do mundo. O banco cobra juros pelo risco e pelo capital. O Estado entra depois, como sócio invisível, e cobra também — não por criar valor, mas por autorizar a formalidade da necessidade.
É aqui que o imposto de selo revela o seu lado mais simbólico: não é apenas fiscalidade, é uma mensagem subterrânea de castigo. Uma espécie de multa de classe, disfarçada de normalidade administrativa.
A herança exposta à voracidade ritual
Mesmo a morte, esse limite absoluto, não consegue ser espaço de silêncio. O Estado aparece na fronteira do luto, não com a delicadeza da protecção social, mas com a precisão da cobrança. O selo funciona então como etiqueta conveniente, uma palavra técnica que cobre a nudez do acto.
O imposto perfeito para um sistema preguiçoso
O imposto de selo é cómodo. Não exige grandes debates. Não provoca protestos diários. É pequeno o suficiente para ser tolerado, constante o suficiente para ser inevitável. Um imposto de pouca luz e grande sombra.
E é por isso que resiste: porque não depende de visão, depende de inércia. E a inércia, em Portugal, tem estatuto de património nacional.
Epílogo: a modernidade começa pelo que ousamos abolir
Acabar com o imposto de selo não seria apenas uma reforma técnica. Seria um gesto simbólico de maturidade do Estado, um corte com a lógica feudal da taxa sobre o acto, um sinal de que a cidadania não precisa de pedágio para assinar, habitar, pedir, herdar.
Enquanto ele existir nestes moldes, Portugal continuará a parecer, aqui e ali, um reino antigo com Wi-Fi moderno: a tecnologia avançou, mas o instinto de cobrança ficou a guardar o castelo.
Contexto editorial: esta crónica dialoga com a denúncia do autor sobre o imposto de selo como sobrevivência histórica de um Estado que cobra o gesto e a fragilidade.
https://observador.pt/opiniao/o-imposto-que-nunca-morre/
com co-autoria editorial de Augustus