Quando os Deuses da Ética Gelaram na Islândia e Derreteram em Lisboa

Gylfi Zoega apontou bem ao coração da tempestade: quem se beneficia com o alto endividamento do Estado e dos bancos em Portugal?
– Economista islandês, Zoega participou no documentário Inside Job, que aborda a crise financeira global de 2008. (Wikipedia)
– A Islândia investigou, julgou e levou à justiça banqueiros e responsáveis políticos após o colapso bancário de 2008. (IOES)
– Zoega alertou que Portugal deveria "ir aos incentivos" — ou seja, investigar quem ganhou com os empréstimos, quem puxou os cordelinhos, nos governos e nos bancos.
1. Um espelho islandês para Portugal
A Islândia enfrentou a sua crise de peito aberto: bancos descontrolados, crédito fácil, dívida disparada, falências, revolta pública e… consequências.
(fonte)
Zoega, originário desse país, tem a vantagem de observar de fora e de dentro: "quem ganhou com isto? no meu país sei quem puxou os cordelinhos… Portugal precisa de fazer o mesmo."
E nesse "fazer o mesmo" reside a mensagem incómoda: a corrupção não é apenas fraude visível, é sistema que tolera, alimenta e recompensa a irresponsabilidade.
2. A lição moral: dívida, banca e política – a tríade do silêncio
Quando um Estado e bancos contraem dívida massiva, alguém paga a fatura: os cidadãos, o futuro, o presente.
Zoega lembra que em Portugal o simples facto de estar no euro "é uma bênção"… mas também um cárcere:
"vocês têm de lidar com os problemas estruturais que têm" — em lugar de fugir para a depreciação monetária.
A metáfora do espelho islandês grita para nós: não basta reagir, é preciso responsabilizar.
Instituições fortes não bastam se os incentivos estiverem viciados.
3. Portugal e o teatro da mediocridade
Em Portugal, somos muitas vezes espectadores passivos de uma repetição trágica: crises, "investigações" simbólicas, poucas condenações, novas rotinas.
Zoega explicou que no seu país "haveria de saber quem puxou os cordelinhos, porque o fez e o que fez."
Por cá, parece-se mais interessado em manter os cordelinhos em mãos amigas, invisíveis e impunes.
É sempre mais fácil apagar o incêndio do que impedir o fósforo de entrar.
4. Do cinema à vida real: o poder da responsabilidade
O documentário Inside Job apresenta a Islândia como micro-laboratório da devastação financeira e como palco da reconstrução — porque, depois da queda, veio a justiça: acusações, julgamentos, mudanças.
(The Guardian)
Portugal pode ver-se no ecrã, mas recusa ainda o enredo da responsabilização.
5. Conclusão: levantar a cortina
Se Portugal quiser sair do eterno acto da mediocridade, há que levantar a cortina e responder às seguintes perguntas com clareza:
– Quem ganhou com o endividamento público e bancário?
– Quais foram os incentivos, explícitos ou ocultos, para que o Estado e os bancos pedissem tanto emprestado?
– Como evitar que se repita o ciclo — dívida, resgate, privatização das perdas, socialização dos custos?
A Islândia fez o que não se quis fazer aqui: expor, investigar, julgar. Portugal pode ainda fazê-lo — se tiver coragem, transparência e vontade de justiça.
Fontes credíveis
- Zoega, Gylfi. Restoring Confidence in the Aftermath of Iceland's Financial Crisis, Working Paper W17:01, 2017.
- Gylfason, Thorvaldur & Zoega, Gylfi. Individual Behaviour and Collective Action: The Path to Iceland's Financial Collapse, CESifo Working Paper Series 7874, 2019.
- Development Education Review – Análise de Inside Job.
- The Guardian – Inside Job: How Bankers Caused the Financial Crisis.
- The Report of the Investigation Commission of Althing (Islândia).
© Francisco Gonçalves