Portugal: 50 Anos de Alternância sem Mudança

A ilusão democrática que prendeu o país à mediocridade


Ilustração conceptual do ciclo político português

Imagem: O Parlamento em círculo — símbolo de meio século de alternância sem reforma.

Portugal vive há meio século num paradoxo trágico: muda de governo para que tudo permaneça igual. PS e PSD alternam-se como atores de uma peça velha, interpretando a mudança enquanto o país continua imóvel. A democracia tornou-se ritual, a alternância tornou-se anestesia.

1. A rotação da mediocridade

Desde 1974, Portugal vive uma sequência quase perfeita de revezamento entre os mesmos dois partidos. Chamam-lhe alternância democrática, mas é apenas gestão de turnos do poder. A cada ciclo, muda o protagonista, mas o guião é o mesmo — promessas de reforma, aumento da dívida, compadrio, e a velha desculpa da "herança pesada".

O país tornou-se refém de um sistema político fechado, onde a lealdade partidária vale mais do que o mérito, e o poder é distribuído como prebenda entre amigos. A partidocracia não é uma distorção: é o sistema em si.

2. A ausência de reformas estruturais

Em cinquenta anos, nenhum governo ousou enfrentar as verdadeiras causas do atraso nacional: uma justiça lenta e politizada, uma máquina pública obesa e ineficiente, um sistema fiscal que estrangula quem trabalha, uma educação que forma para o passado e um Estado que sufoca quem cria riqueza.

As reformas estruturais foram substituídas por reformas cosméticas — decretos, comissões, leis transitórias, planos estratégicos que morrem no papel. O que muda são os nomes dos ministérios, nunca o conteúdo das políticas. Portugal é um país onde a legislação envelhece mais depressa do que as infraestruturas.

3. O país das leis descartáveis

Cada novo governo apaga o anterior, como se a governação fosse um quadro de ardósia. O resultado é um Estado em permanente adolescência, onde nada amadurece e tudo é provisório. Esta volatilidade jurídica é veneno para a economia e pânico para o investimento. Nenhum empresário sério investe num país onde o quadro fiscal muda ao sabor das sondagens.

Portugal tornou-se, assim, um laboratório de incerteza legislativa — e a instabilidade é o imposto invisível que todos pagamos.

4. A corrupção como sistema

A corrupção deixou de ser exceção. É o óleo que lubrifica a engrenagem da partidocracia. Dos contratos públicos aos concursos, das nomeações aos fundos europeus, tudo está atravessado por interesses de partido. E quando há escândalo, o sistema reage como um organismo doente: cria uma comissão de inquérito — e volta a dormir.

O problema não é a falta de leis — é a falta de vergonha. Portugal tem regulamentos para tudo e moral para nada.

5. O preço da instabilidade

Enquanto a classe política brinca às maiorias e às moções, o país real estagna. A economia não cresce, o trabalho desvaloriza-se, os jovens partem e os reformados empobrecem. A instabilidade legislativa e fiscal transformou-se numa doença crónica: ninguém confia no futuro. O país vive de remendos, subsídios e esperanças a crédito. E, como sempre, os que produzem são os que mais pagam.

6. Uma democracia sem coragem

Portugal não precisa de alternância — precisa de coragem. De líderes que saibam dizer não às corporações, aos partidos e às fidelidades parasitárias. O que o país vive não é democracia — é revezamento entre burocratas domesticados. A política portuguesa tornou-se uma máquina de autopreservação: os partidos já não servem o povo, servem-se dele.

7. O que poderia ter sido

Portugal poderia ser um país de inovação, ciência e excelência industrial. Mas preferiu ser o país das nomeações e das sinecuras. Enquanto outros criaram ecossistemas de prosperidade, Portugal especializou-se em exportar talento e importar dependência. O país continua a viver da retórica do futuro, porque o presente já não lhe pertence.

8. Epílogo — O Parlamento em espiral

O parlamento português é uma roda que gira sem sair do lugar. Os discursos mudam de cor, mas o som é o mesmo. E o povo, cansado de aplaudir o espetáculo, começa a perceber que a mudança não virá de dentro. Talvez um dia o ciclo se quebre — e o país descubra que o futuro não se conquista votando nos mesmos de sempre, mas **reconstruindo o próprio sistema**.


📚 Fontes e Leituras Complementares

Estas fontes ilustram a erosão institucional e o colapso de confiança pública num regime que, há cinco décadas, se alimenta da própria inércia.


Publicado em Fragmentos do Caos — Série Contra o Teatro da Mediocridade.

Artigo de Opinião Co-autoria: Francisco Gonçalves & Augustus Veritas Lumen.

🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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