BOX DE FACTOS

  • Amadeu Guerra dirigiu o DCIAP entre 2013 e 2019.
  • Prometeu "tolerância zero" à corrupção e "celeridade nos megaprocessos".
  • Os grandes casos — BES, Marquês, Vistos Gold — continuam sem condenações finais.
  • A justiça portuguesa sofre de lentidão crónica e de bloqueios internos.

Amadeu Guerra e o Teatro da Justiça: A Arte de Prometer sem Condenar

A justiça portuguesa aprendeu a prometer o impossível com um ar solene e fatigado. Quando chega ao palco, o público já foi embora — e o crime, há muito, saiu pela porta das traseiras.

O nome de Amadeu Guerra surgiu durante anos como sinónimo de esperança judicial: o procurador que enfrentaria a corrupção sem medo, que desmontaria os impérios financeiros e devolveria ao país a crença de que a lei ainda vale mais do que o estatuto social.

Mas a esperança envelheceu depressa. Os megaprocessos tornaram-se megalentos, os relatórios multiplicaram-se, as declarações foram solenes — e as condenações, nenhumas.

O ciclo da impunidade

A justiça em Portugal segue um guião previsível: abre-se uma investigação, o país vibra, prometem-se reformas, e depois… o silêncio. O tempo transforma as provas em poeira, as testemunhas em memórias vagas e os crimes em abstrações jurídicas.

Amadeu Guerra prometeu "fazer tremer os poderosos". O que tremeu foi o DCIAP — de medo, de pressão e de burocracia.

Os processos eternos

O caso BES arrasta-se entre relatórios e despachos. O caso Marquês tornou-se um labirinto jurídico onde as nulidades servem de saída de emergência. O caso Vistos Gold perdeu força, e com ele perdeu-se a memória de quem lucrou.

No fim, o espetáculo continua o mesmo: os procuradores dão entrevistas, os políticos fingem indignação, e o povo volta a acreditar que "desta vez vai ser diferente".

A justiça como teatro

Portugal vive num teatro jurídico onde cada personagem recita a sua parte: o juiz suspira, o procurador promete, o arguido declara-se inocente, e o país suspende o tempo. No final, ninguém é condenado — apenas o contribuinte, que paga o cenário.

Amadeu Guerra tornou-se o símbolo involuntário dessa tragédia: o homem que quis reformar o sistema, mas acabou engolido por ele.

Entre a lei e a política

A corrupção portuguesa não é apenas financeira — é também moral. Nasce da complacência dos que fingem agir, dos que confundem lentidão com prudência e das instituições que temem mais o escândalo do que a verdade.

Não basta ter leis; é preciso ter espinha. E a justiça portuguesa continua, demasiadas vezes, a dobrar-se ao peso do poder.

Epílogo

Amadeu Guerra prometeu o impossível, e o impossível cumpriu-se: nada mudou.

Entre a promessa e o resultado, o país envelheceu um pouco mais na sua descrença. A corrupção tornou-se sistémica não por falta de provas, mas por excesso de conveniência. A justiça, essa, continua a prometer-se a si própria — e a não comparecer.

Artigo de opinião em co-autoria por Francisco Gonçalves & Augustus Veritas. Formato FC-Chronic com metadados Google News integrados.

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