O Grande Desperdício: Como Portugal Derrete os Milhares de Milhões do PRR Uma análise crítica ao destino dos fundos europeus em Portugal e ao ciclo de mediocridade que perpetua o atraso estrutural do país. 2025-11-19 Fragmentos do Caos http://www.fragmentoscaos.eu/wp-content/uploads/2025/11/file_00000000f5e071f4a2a79c772bc81733.png

BOX DE FACTOS

  • Portugal recebe dezenas de milhares de milhões através do PRR até 2026.
  • Grande parte dos fundos é aplicada em infraestruturas de impacto duvidoso.
  • Menos de 10% é canalizado para inovação com retorno económico real.
  • O país mantém produtividade estagnada há 20 anos.
  • Execução do PRR é tratada como objectivo, não a transformação do país.

O Grande Desperdício: Como Portugal Derrete os Milhares de Milhões do PRR

Enquanto a Europa injecta dezenas de milhões para "transformar" Portugal, o país continua a repetir o mesmo ritual: gastar sem medir, investir sem visão, construir sem futuro — e depois lamentar o atraso como se fosse obra do destino.

Portugal encontra-se novamente diante de um rio de ouro: os milhares de milhões do PRR, anunciados como o combustível mágico que nos lançará para a modernidade europeia. Mas, como sempre, a história tem o mesmo sabor amargo — o sabor do desperdício crónico, das oportunidades perdidas e da mediocridade institucional que engole tudo o que toca.

1. A ilusão da abundância

Quando os fundos chegam, o país deslumbra-se: obras, cerimónias, relatórios, powerpoints. Mas falta aquilo que nunca aprendemos a cultivar: estratégia. Gasta-se como quem risca bilhetes de lotaria — na esperança quase infantil de que uma qualquer obra pública se transforme, por milagre, em produtividade.

A realidade, porém, é simples: gastar dinheiro não é transformar um país. E Portugal continua a confundir as duas coisas.

2. Os círculos de interesse que nunca mudam

Grande parte do PRR acaba canalizado para os mesmos grupos que há décadas orbitam o Estado: empreiteiros, consultoras, empresas públicas quase parasitárias e entidades que existem apenas para justificar a sua própria sobrevivência.

Chama-se a isto "transformação estrutural", mas raramente passa da reciclagem de favores — e do aniquilar do futuro.

3. Medir impacto? Para quê?

Nenhum país avança sem medir resultados. Mas em Portugal o critério é sempre o mesmo: foi gasto? Se foi gasto, está tudo bem. Se não produziu riqueza, não importa. Se não aumentou produtividade, paciência. Se não trouxe inovação, azar.

O país continua a operar como uma máquina antiga que só sabe fazer o que sempre fez — mesmo sabendo que nunca irá funcionar.

"Em cada oportunidade, fazer do mesmo modo de sempre, e de cada vez esperar resultados diferentes, é apenas sinónimo de loucura." - Albert Einstein

4. O país que rega areia à espera de uma floresta

O PRR deveria ser uma sementeira de futuro: tecnologia, indústria avançada, AI aplicada, robótica, investigação, energia limpa, redes científicas, empresas que exportem valor real. Em vez disso, o país insiste em regar areia, esperando que dela surja uma floresta de progresso.

No fim, a areia só absorve a água. E o futuro esvai-se.

5. A verdade que ninguém diz

Se este ciclo continuar, Portugal sairá do PRR como entrou: lento, pobre, resignado, dependente da Europa, orgulhoso de pequenas obras e incapaz de criar riqueza. O drama não é o dinheiro. É a incapacidade crónica de o transformar em futuro.

Epílogo

Portugal não precisa de mais rios de dinheiro — precisa de cérebros livres, coragem política e visão de país. Até lá, continuará a desperdiçar milhões como quem folheia um livro que nunca lê. E o futuro, cansado, continuará a esperar por nós na estação seguinte.

Escrito por Francisco Gonçalves com coautoria editorial de Augustus Veritas.
Fragmentos do Caos – Contra o Teatro da Mediocridade.
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