O Grande Desperdício: Como Portugal Derrete as dezenas de Milhões do PRR

BOX DE FACTOS
- Portugal recebe dezenas de milhares de milhões através do PRR até 2026.
- Grande parte dos fundos é aplicada em infraestruturas de impacto duvidoso.
- Menos de 10% é canalizado para inovação com retorno económico real.
- O país mantém produtividade estagnada há 20 anos.
- Execução do PRR é tratada como objectivo, não a transformação do país.
O Grande Desperdício: Como Portugal Derrete os Milhares de Milhões do PRR
Portugal encontra-se novamente diante de um rio de ouro: os milhares de milhões do PRR, anunciados como o combustível mágico que nos lançará para a modernidade europeia. Mas, como sempre, a história tem o mesmo sabor amargo — o sabor do desperdício crónico, das oportunidades perdidas e da mediocridade institucional que engole tudo o que toca.
1. A ilusão da abundância
Quando os fundos chegam, o país deslumbra-se: obras, cerimónias, relatórios, powerpoints. Mas falta aquilo que nunca aprendemos a cultivar: estratégia. Gasta-se como quem risca bilhetes de lotaria — na esperança quase infantil de que uma qualquer obra pública se transforme, por milagre, em produtividade.
A realidade, porém, é simples: gastar dinheiro não é transformar um país. E Portugal continua a confundir as duas coisas.
2. Os círculos de interesse que nunca mudam
Grande parte do PRR acaba canalizado para os mesmos grupos que há décadas orbitam o Estado: empreiteiros, consultoras, empresas públicas quase parasitárias e entidades que existem apenas para justificar a sua própria sobrevivência.
Chama-se a isto "transformação estrutural", mas raramente passa da reciclagem de favores — e do aniquilar do futuro.
3. Medir impacto? Para quê?
Nenhum país avança sem medir resultados. Mas em Portugal o critério é sempre o mesmo: foi gasto? Se foi gasto, está tudo bem. Se não produziu riqueza, não importa. Se não aumentou produtividade, paciência. Se não trouxe inovação, azar.
O país continua a operar como uma máquina antiga que só sabe fazer o que sempre fez — mesmo sabendo que nunca irá funcionar.
"Em cada oportunidade, fazer do mesmo modo de sempre, e de cada vez esperar resultados diferentes, é apenas sinónimo de loucura." - Albert Einstein
4. O país que rega areia à espera de uma floresta
O PRR deveria ser uma sementeira de futuro: tecnologia, indústria avançada, AI aplicada, robótica, investigação, energia limpa, redes científicas, empresas que exportem valor real. Em vez disso, o país insiste em regar areia, esperando que dela surja uma floresta de progresso.
No fim, a areia só absorve a água. E o futuro esvai-se.
5. A verdade que ninguém diz
Se este ciclo continuar, Portugal sairá do PRR como entrou: lento, pobre, resignado, dependente da Europa, orgulhoso de pequenas obras e incapaz de criar riqueza. O drama não é o dinheiro. É a incapacidade crónica de o transformar em futuro.
Epílogo
Portugal não precisa de mais rios de dinheiro — precisa de cérebros livres, coragem política e visão de país. Até lá, continuará a desperdiçar milhões como quem folheia um livro que nunca lê. E o futuro, cansado, continuará a esperar por nós na estação seguinte.
Fragmentos do Caos – Contra o Teatro da Mediocridade.