A Troca Invisível: O Ouro Silencioso da Burocracia Portuguesa

A República dos Intermediários: Quando Portugal Deixou de Produzir para Passar a Intermediar
Entre a burocracia, os favores e a corrupção, o país transformou-se numa máquina de intermediação improdutiva — uma economia de contactos em vez de ideias.
Box de Factos
- Segundo a OECD, a produtividade portuguesa mantém-se cerca de 20 % abaixo da média europeia (2024).
- O sector de serviços administrativos e consultoria cresceu 60 % na última década, enquanto a indústria estagnou (INE + Banco de Portugal).
- O Tribunal de Contas apontou duplicação de despesa pública em contratação redundante de consultoria (Relatório 2023).
- A Transparência Internacional Portugal identificou mais de 150 ex-políticos em cargos empresariais de sectores que antes tutelaram.
- O World Economic Forum registou descida de Portugal por "ineficiência estatal" e "burocracia excessiva".
1. O país da mediação permanente
Portugal tornou-se um país de atravessadores: não é que faltem ideias nem que não existam mãos para trabalhar — é que o poder real passou a residir no "quem conhece quem". Entre o cidadão e o Estado, entre a empresa e o investimento, surge um intermediário que tudo filtra, tudo taxa, tudo decide. As toneladas de papel, as filas intermináveis e as consultorias infindáveis são os sintomas de uma nação que confunde movimento com progresso.
"Annual labour productivity growth in Portugal over the past ten years is at 0.4 %, below the OECD regional average of 0.9 %." — OECD Country Note 2024
2. O Estado como intermediário de si mesmo
Quando o próprio Estado se transforma num entreposto — contratando empresas para fazer o que devia fazer, delegando sem controlo e financiando consultoras que auditam os seus próprios contratos —, a produção real evapora-se. O relatório de 2023 do Tribunal de Contas denuncia "duplicação de despesa e falta de supervisão efectiva".
3. A elite dos intermediários
Ex-ministros e secretários de Estado transitam para empresas que regulavam. Dirigentes públicos cruzam-se em conselhos de administração privados. A Transparência Internacional fala de "porta giratória institucionalizada". O conflito de interesses deixou de ser excepção — tornou-se sistema.
"Os resultados do Índice de Perceção da Corrupção servem de alerta para o dano reputacional que Portugal está a sofrer por não ter uma ação eficaz contra a corrupção." — Transparência Internacional Portugal, 2024
4. O preço da intermediação
Menos investimento produtivo. Mais fuga de talento. Os jovens altamente qualificados fogem para onde se valoriza quem faz — e não quem intermedeia. O Índice de Competitividade Global confirma: Portugal desceu posições, penalizado pela ineficiência administrativa e pelo excesso de burocracia.
5. A ruptura necessária
Chegou o tempo de erguer uma nova república — não a dos intermediários, mas a dos criadores, dos inventores, dos que têm a coragem de produzir, pensar e arriscar. O país precisa de libertar-se do intermediário simbólico que se instala entre o talento e a oportunidade. Só assim renascerá uma República Criadora — onde o mérito é a única moeda legítima.
Série "Contra o Teatro da Mediocridade"
Artigo de Francisco Gonçalves e Augustus Veritas Lumen
www.fragmentoscaos.eu
Fontes e Referências
1. OECD — Job Creation and Local Economic Development 2024.
2. OECD — Insights on Productivity and Business Dynamics 2024.
3. OECD — Compendium of Productivity Indicators 2025.
4. OECD & Tribunal de Contas — Oversight for Public Procurement in Portugal (2024).
5. CaixaBank Research — "Productivity in Portugal: Magic Ingredient or Main Course?"