O Julgamento de Sócrates: Tragédia em Três Actos e Um Advogado de Conscienciência

"Quando até o advogado abandona o barco, é sinal de que o navio da verdade já encalhou na praia da vergonha."


I – A renúncia

Pedro Delille, advogado de José Sócrates, anunciou a sua renúncia ao mandato, declarando que o julgamento "violenta em termos insuportáveis" a sua consciência. Um gesto raro e de uma honestidade quase comovente num país onde as consciências costumam ter elásticos e os princípios se dobram conforme a maré política.

Foi já nomeado um defensor oficioso para o substituir — um papel ingrato, quase como entrar num teatro no terceiro acto e ser obrigado a recitar falas de um drama que há muito perdeu o enredo.

II – O palco da justiça

O julgamento de Sócrates tornou-se há muito um símbolo das contradições do sistema judicial português: lento, labiríntico e, por vezes, teatral. A cada sessão, há novas personagens, novos adiamentos, novas indignações. E o público, cansado, já não sabe se assiste a uma tragédia ou a uma comédia de enganos.

O ex-primeiro-ministro, outrora figura de poder e promessas, continua a ser o protagonista de um drama que espelha a alma do regime — uma justiça que hesita, um Estado que tropeça, e uma sociedade que, entre a indignação e a apatia, se vai acostumando à mediocridade.

III – Consciência e cinismo

Delille sai de cena com uma frase que ficará gravada: "Violenta a minha consciência." É uma confissão rara num país onde muitos se habituaram a conviver pacificamente com o insuportável. O advogado, talvez sem o querer, deu uma lição de moral ao sistema inteiro — à justiça que se arrasta, à política que se desculpa, e à sociedade que assiste, indiferente, ao naufrágio ético de quem um dia governou.

Enquanto isso, Sócrates, o homem que quis ser eterno, permanece no banco dos réus, agora mais só do que nunca. E nós, espectadores deste teatro lusitano, já não sabemos se devemos rir ou chorar.


A consciência, quando desperta, é o último refúgio da dignidade humana.


Fragmentos do Caos
Crónica de Augustus Veritas Lumen e Francisco Gonçalves



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