📜 Box de Factos

Tema: Repatriamento de capitais portugueses em paraísos fiscais.

Proposta: Criar um programa nacional — Regresso do Capital ao Futuro — que incentive o retorno desses fundos para investimento em sectores produtivos, tecnológicos e sustentáveis.

"O ouro que falta nos cofres está a dormir nos offshores — à espera de um país que o saiba fazer sonhar com algo maior do que o lucro: o futuro."

O Regresso do Ouro Perdido: Quando a Fuga se Torna Força

Portugal vive há décadas sob a sombra de um paradoxo: o país empobrece, mas o seu capital não desapareceu — apenas fugiu. Fugiu para onde o Estado não chega, para onde a corrupção é institucionalizada com elegância, e onde o dinheiro dorme em silêncio: os paraísos fiscais.

É tempo de inverter essa lógica. Não através de retórica moralista, mas com pragmatismo inteligente. O capital foge da incerteza, da instabilidade fiscal e da insegurança jurídica. Foge da mediocridade burocrática e das promessas adiadas. Se quisermos que ele regresse, não basta chamá-lo — é preciso dar-lhe razões para confiar.

Portugal deveria criar um programa estratégico — chamemos-lhe Regresso do Capital ao Futuro — destinado a canalizar o dinheiro português perdido nos offshores para dentro das veias produtivas da economia real. Mas não qualquer economia: a economia do conhecimento, da energia limpa, da biotecnologia, da cibersegurança, da inteligência artificial e da indústria avançada.

Três condições essenciais

  1. Transparência radical — cada euro regressado deve ser rastreável e aplicado em projectos com retorno mensurável e impacto social positivo.
  2. Incentivo fiscal condicionado — benefícios temporários, mas apenas se o capital for investido em sectores produtivos e inovadores, nunca na especulação imobiliária ou financeira.
  3. Estabilidade jurídica e ética política — nenhuma empresa ou investidor regressará a um país onde a lei se dobra à conveniência dos poderosos.

Com estas bases, o país poderia transformar uma ferida crónica numa fonte de vitalidade. O retorno dos capitais seria um motor de inovação, criando novos empregos, novas indústrias e um novo ciclo de confiança nacional.

Mas há algo mais profundo e quase poético nesta ideia. O capital perdido é como um tesouro submerso no inconsciente colectivo da nação, escondido nas águas escuras do medo e da desconfiança. Ele aguarda o momento em que Portugal recupere a coragem de ser dono do seu destino, de criar uma economia que não se vergue ao oportunismo, mas floresça no mérito e na criação.

Imaginemos um cenário onde esses fundos retornam, não como dinheiro anónimo, mas como energia criadora — convertidos em fábricas de inovação, laboratórios de ideias, escolas técnicas avançadas e startups capazes de transformar o país num polo de criatividade europeia. Que cada milhão regressado financie cem sonhos, que cada sonho gere uma centelha de progresso.

O desafio não é técnico — é moral e político. Exige um Estado que saiba distinguir entre perseguir o pequeno contribuinte e mobilizar os grandes ausentes. Exige uma elite que queira deixar de viver do privilégio e passe a viver do mérito.

Em última instância, trata-se de um gesto de reconciliação entre o país e o seu próprio potencial. Porque não há maior ironia do que ver um povo pobre e um Estado endividado, quando ambos têm um tesouro invisível guardado fora das suas fronteiras.

Talvez o futuro de Portugal esteja, afinal, nas suas próprias sombras — à espera de luz, confiança e visão. E quando essa luz surgir, o ouro perdido regressará, não por obrigação, mas por encanto.


© Francisco Gonçalves — Série "Contra o Teatro da Mediocridade"
Publicado em Fragmentos do Caos

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