PCP critica Nobel da Paz a opositora venezuelana e volta a defender ditaduras amigas

📜 Box de Factos
- Declaração: Paulo Raimundo, secretário-geral do PCP
- Contexto: Reação à atribuição do Prémio Nobel da Paz 2025 a Maria Corina Machado, opositora venezuelana
- Afirmação: "Não deram o Nobel da Paz a Trump, deram a uma trumpista."
- Data: 10 de outubro de 2025
- Fonte: Agências nacionais e internacionais
Os Amigos das Ditaduras e o Desprezo pela Liberdade
I. O absurdo com sotaque português
Há frases que definem épocas. E há outras que as envergonham. A declaração do secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo — "Não deram o Nobel da Paz a Trump, deram a uma trumpista" — pertence à segunda categoria: uma daquelas sentenças que deveriam ser expostas nas paredes de uma escola, como exemplo de como a cegueira ideológica consegue destruir qualquer noção de decência política.
Maria Corina Machado não recebeu o Nobel por ser "trumpista", mas por resistir a uma ditadura que prendeu, torturou e assassinou opositores. Mas, para a velha cartilha comunista, quem não ajoelha perante o regime de Caracas é inimigo. A coerência? Essa morreu com o Muro de Berlim — mas o reflexo pavloviano do apoio a qualquer ditador "amigo" sobreviveu nos corredores da Soeiro Pereira Gomes.
II. O manual da inversão moral
O PCP — esse veterano defensor dos "povos irmãos" de Cuba, Venezuela, Coreia do Norte e outros infernos — volta a mostrar que a sua bússola ética gira em torno do dogma, não da dignidade humana. Quando a liberdade é torturada, o PCP fala em "soberania". Quando o povo protesta, chama-lhe "instrumento do imperialismo". E quando uma mulher desafia um tirano, chamam-lhe "trumpista".
É o velho manual de inversão moral: as vítimas são culpadas, os algozes são heróis, e a palavra "paz" é usada como escudo para o silêncio cúmplice. Uma paz sem liberdade, sem justiça e sem verdade — a paz dos cemitérios ideológicos.
III. A nostalgia das algemas
Enquanto a Europa tenta libertar-se dos fantasmas do autoritarismo, o PCP continua de mão dada com os mortos-vivos da história. Há uma nostalgia das algemas, uma ternura pelos regimes onde só há uma voz — a do partido, a do líder, a do medo.
O partido que se diz "dos trabalhadores" tornou-se o partido dos tiranos. Defende ditadores que matam operários, idolatra revoluções que fuzilaram camponeses, e cita Marx para justificar o silêncio diante da repressão. E tudo isto é feito, ironicamente, em nome da "liberdade dos povos".
IV. A coragem de uma mulher livre
Maria Corina Machado simboliza o oposto disso. É a mulher que, em vez de se calar, falou. Em vez de fugir, ficou. Em vez de odiar, resistiu. E é justamente por isso que incomoda tanto — porque a sua força revela a fraqueza moral dos que se dizem "anti-imperialistas" mas veneram ditaduras tropicais.
Chamam-lhe "trumpista" porque não têm coragem de chamá-la pelo que ela é: livre. E a liberdade, para os dogmáticos, é o mais perigoso dos vírus.
V. Epílogo: o eco das sombras
Portugal, país que outrora ensinou o mundo a navegar, tornou-se especialista em relativizar o óbvio. E o óbvio é este: não há esquerda nem direita na defesa da dignidade humana. Há apenas os que a protegem e os que a traem.
Enquanto o PCP se indigna com um Nobel entregue a quem lutou contra um tirano, o povo venezuelano continua a fugir do país, faminto e sem luz. Mas em Lisboa, há quem ainda levante o punho — não para a liberdade, mas para o passado.
E assim seguimos, entre discursos de outrora e realidades de agora, com a consciência anestesiada e a História a repetir-se — como farsa e vergonha.
O que também me intriga em Portugal é que um país que inventou o mar e desbravou o infinito consegue manter-se prisioneiro de ideias do século XIX? É que o ADN português tem esta dualidade poética — um pé na caravela e outro na caverna. - Francisco Gonçalves