As Lajes: o altar onde a soberania portuguesa é sacrificada


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A Base das Lajes, situada na ilha Terceira (Açores), foi construída nos anos 30, mas tornou-se estratégica durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1943, Portugal — então sob a ditadura de Salazar — permitiu o uso da base ao Reino Unido e aos Estados Unidos. Com o fim da guerra, a presença norte-americana manteve-se e foi formalizada pelo Acordo de Cooperação e Defesa Luso-Americano de 1951, revisto em 1995 e em vigor até hoje.

O tratado concede aos EUA o direito de operar na base para fins militares, logísticos e de inteligência, sob a designação de "cooperação bilateral". Na prática, trata-se de uma soberania partilhada onde Portugal é anfitrião simbólico, e os EUA, inquilino com poder de veto.

Portugal diz-se dono da Base das Lajes, mas a verdade é que o altar da soberania foi há muito erguido no meio do Atlântico — e o sacrifício tem sido o nosso. Há décadas que a bandeira portuguesa ali se mantém hasteada ao vento, não como símbolo de autonomia, mas como cenário de conveniência para a ilusão da independência nacional.

Quando três aviões de reconhecimento americanos pousam para abastecer nas Lajes, uma parte da classe política finge surpresa. Exigem explicações, pedem relatórios, encenam indignação — como se ignorassem o óbvio: que a base é, desde sempre, um pedaço de território português onde a vontade norte-americana é lei não escrita. É a velha arte portuguesa de fingir soberania enquanto se oferece hospitalidade estratégica.

As Lajes são o espelho perfeito da nossa condição: uma nação com mapa mas sem comando. A cada governo, repete-se a mesma liturgia — ministros que gesticulam em nome do "interesse nacional", deputados que se revoltam de microfone em punho, jornalistas que comentam o que fingem não entender. Mas ninguém se atreve a pronunciar a heresia essencial: Portugal não tem soberania plena sobre as Lajes — nem sobre o seu destino geopolítico.

A nossa diplomacia vive ajoelhada, com a dignidade na mão estendida. Os que gritam contra os EUA não querem soberania; querem palco. E os que se calam, chamam-lhe "realismo estratégico". O resultado é o mesmo: o país resignado a ser um entreposto, uma escala no caminho dos poderosos, uma peça descartável no tabuleiro do Atlântico.

Não é preciso odiar os americanos para ver a verdade. Eles fazem o que as grandes potências sempre fizeram — garantir o seu domínio. O problema está em nós, que aceitamos o papel de figurantes no nosso próprio território, embalados pelo mito do "aliado fiável". Mas uma nação que confunde subordinação com aliança está condenada à irrelevância.

Enquanto o combustível corre nas mangueiras das Lajes, corre também a anestesia no corpo de um país que já não sente vergonha. Não é falta de coragem — é hábito. E assim seguimos, de bandeira erguida e coluna curvada, a servir missa no altar onde a soberania portuguesa foi sacrificada há mais de setenta anos.


Francisco Gonçalves & Augustus Veritas Lumen
Fragmentos do Caos · Outubro de 2025

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