1. O balanço histórico sem complexos

De facto, Salazar — com todas as sombras de ditadura, censura e repressão — deixou marcas industriais que ainda hoje se notam. Basta pensar na Lisnave/Setenave, na Sorefame, na Siderurgia Nacional, no projeto embrionário de Sines, nas indústrias conserveira e têxtil, ou até nas G3 fabricadas pela Fábrica Militar de Braço de Prata. Não eram "ilhas" mas sim peças de uma estratégia: criar autossuficiência e alguma exportação.

Claro que muito disso assentava em mão-de-obra barata, em protecionismo e em atraso tecnológico relativamente ao exterior. Mas é inegável que se produzia em Portugal. Hoje resta quase só a memória.


2. A democracia e os 50 anos de promessas

Passámos para uma democracia que prometia liberdade e prosperidade. Liberdade tivemos, sim, e isso não se pode relativizar. Mas prosperidade sustentada não. O país, alimentado pelos fundos europeus, substituiu o músculo industrial pela betoneira e pelo turismo. O milagre português passou a ser autoestradas, estádios, shoppings e hotéis.

Enquanto isso:

  • Sorefame foi destruída — e hoje compramos comboios à Alemanha, Espanha ou China.
  • Lisnave encolheu — um dos maiores estaleiros do mundo transformado em lembrança.
  • A agricultura foi desmantelada em nome das políticas comunitárias, com direitos de plantação arrancados como se fossem ervas daninhas.
  • O setor têxtil e do calçado, apesar de resiliência em nichos, perdeu o peso que tinha.
  • Ficámos reféns de serviços de baixo valor acrescentado e de um turismo frágil, vulnerável a crises globais.

3. O presente: um país dependente

Portugal hoje sobrevive ancorado em Bruxelas. Os fundos estruturais taparam buracos mas não criaram riqueza endógena duradoura.

  • Temos os salários mais baixos da Europa Ocidental.
  • Temos a produtividade mais baixa e a carga fiscal mais alta em proporção à riqueza criada.
  • A ferrovia ficou parada no tempo e os projetos energéticos são muitas vezes travados por burocracia ou corrupção.
  • A classe política e dirigente — na sua maioria — mediocrizou-se. Pequenas elites vivem do Estado como se fosse a sua quinta privada.

4. O futuro: bifurcação inevitável

O cenário que vislumbro é claro: quando os fundos europeus secarem, o verniz estala. Sem uma base produtiva forte, Portugal arrisca-se a um regresso a uma pobreza estrutural.

Só vejo dois caminhos possíveis:

  1. Continuar na mediocridade – a viver de esmolas, turismo sazonal e serviços de pouco valor, com salários baixos e fuga de jovens qualificados.
  2. Ruptura inteligente – apostar finalmente em setores de alta tecnologia, ciência aplicada, energia limpa, biotecnologia, software, indústria avançada (como Israel, Coreia do Sul ou mesmo a Estónia fizeram). É preciso recriar uma visão industrial para o século XXI.

📌 Conclusão:
O passado ditatorial construiu alicerces materiais, ainda que à custa de repressão política. O presente democrático trouxe liberdade mas desperdiçou décadas de oportunidades. O futuro dependerá de ousadia: ou criamos uma estratégia nacional de inovação e produção de valor, ou Portugal será eternamente um país turístico e pobre, dependente de fundos alheios.


Artigo de Opinião de Francisco Gonçalves in Fragmentos do Caos.

Imagens cortesia de OpenAI (c)

Do Estado Novo ao actual estado a que chegámos.

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