A Veneração da Esperteza e o Medo da Inteligência em Portugal

Em Portugal, há uma lei não escrita que molda o carácter do povo: a esperteza é venerada, a inteligência é temida.
Enquanto noutros países se aplaude o génio, aqui bate-se palmas ao chico-esperto.
O cérebro brilhante é visto como ameaça, enquanto o aldrabão de esquina é celebrado como mestre da sobrevivência.
O Culto da Esperteza
O "esperto" é o herói nacional.
- Passa à frente na fila, e todos comentam: "olha, o gajo safou-se!"
- Engana o fisco, e logo se ouve: "isto sim, é que é ter cabeça!"
- Apanha subsídios com papéis inventados, e a aldeia inteira aplaude: "um verdadeiro artista!"
O espertalhão é visto como símbolo de liberdade — alguém que subverte as regras de um sistema injusto. Só que, na prática, não passa de cúmplice do mesmo sistema que finge combater.
E assim se perpetua a mediocridade: cada chico-esperto contribui um fósforo para o incêndio geral.
O Exílio da Inteligência
Já a inteligência verdadeira provoca desconforto.
O pensador, o inovador, o criador não é admirado — é hostilizado.
Porque o cérebro, quando brilha, expõe a sombra dos outros.
E num país habituado a sobreviver pela esperteza, a inteligência é vista como arrogância, elitismo ou, pior, ameaça.
Portugal sempre teve génios — de Camões a Pessoa, de Egas Moniz a Saramago. Mas o destino deles foi quase sempre o mesmo:
– incompreendidos em vida,
– exaltados apenas depois da morte,
– e muitas vezes ignorados pelo próprio povo que lhes devia reconhecimento.
O Medo da Beleza do Cérebro
A inteligência tem uma beleza própria: ilumina, inspira, transforma.
Mas em Portugal, essa beleza assusta.
O povo prefere o conforto da manha ao desafio da ideia. Prefere o truque rápido à reflexão profunda.
Um cérebro brilhante numa sala é como um holofote aceso num galinheiro: todos os frangos se agitam, não pela luz, mas pelo medo de serem vistos na sua pequenez.
O Preço da Mediocridade
Enquanto veneramos a esperteza e rejeitamos a inteligência, condenamos-nos a repetir a mesma história:
- Políticos medíocres a governar com manhas,
- Cidadãos aplaudindo aldrabices,
- E os cérebros verdadeiros a emigrar, porque aqui são tratados como intrusos.
Portugal poderia ser um país farol, mas escolheu ser lanterna fraca.
E não por falta de talento — mas por excesso de medo.
O resultado
Num país onde o povo chama "malandro" ao esperto com admiração e "sabichão" ao inteligente com desprezo, o futuro está escrito:
seremos sempre governados pelos espertos e afastados pelos inteligentes.
E enquanto a esperteza se passeia de peito cheio, a inteligência, tímida e silenciosa, continua a ser a mais bela, mas também a mais temida, presença em Portugal.
👉 Um artigo de Francisco Gonçalves in Fragmentos de Caos
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