A Saúde a Duas Velocidades: Paga o Povo, Usa o Estado

Portugal, desde o 25 de Abril, gosta de se apresentar como a pátria da liberdade e da igualdade. Mas basta olhar para a saúde para perceber que somos mais uma república de duas faixas — e só uma tem via rápida.
No setor público, os trabalhadores têm acesso a um combo de luxo:
- SNS para o básico.
- ADSE para o rápido, confortável e sem filas.
Se o hospital público está cheio, não há stress: marca-se consulta numa clínica privada, paga-se com a ADSE, e o Estado liquida a conta.
No setor privado, os trabalhadores têm acesso… ao SNS.
E quando o SNS não responde? Bem, a escolha é simples:
- Espera-se meses (ou anos) por uma consulta.
- Ou paga-se do próprio bolso uma ida ao privado, sem reembolso, enquanto continua a descontar para financiar… a ADSE dos outros.
Ironia número 1:
Quem tem salários mais estáveis, contratos blindados e maior segurança laboral (público) tem também o melhor acesso à saúde.
Ironia número 2:
Quem anda a saltar de contrato em contrato, com salários de sobrevivência (privado), tem o acesso mais lento e precário — mas continua a pagar os privilégios de quem está na faixa rápida.
O slogan do 25 de Abril dizia "Saúde para todos".
Na prática é "Saúde para todos… mas com fila para uns e fast track para outros".
E quando o trabalhador do privado se queixa, o coro oficial responde: "Ah, mas a ADSE é paga pelos descontos dos funcionários públicos".
Claro que é… mais os teus impostos, meu caro.
Ou pensavas que o dinheiro para comparticipar as cirurgias privadas do vizinho funcionário público vinha do céu?
Portugal é um país tão criativo que conseguiu transformar a igualdade num serviço premium para alguns e low cost para outros — e ainda convencer metade da população de que isto é justo.
um artigo e investigação de Augustus Veritas Lumen.
E agora Caro Cidadão, pagador de impostos toda uma vida e farto de pagar as mordomias dos outros, ironia das ironias - cortesia do Tribunal Constitucional, a fila do SNS vai ganhar ainda mais quilómetros: mais beneficiários, mais reagrupamentos familiares, mais carga num sistema já de joelhos. Generoso, sem dúvida — mas fácil sê-lo quando não se é o primeiro a sofrer as consequências.
Os senhores juízes do TC podem decidir à vontade: eles não vão esperar 8 horas na urgência, nem 2 anos por uma cirurgia. Têm ADSE, a porta VIP para clínicas privadas, onde nunca há falta de ar condicionado nem de vagas. É o tipo de altruísmo confortável: dar acesso ilimitado a um serviço público onde nunca se põe o pé.
Não, senhores juízes, e funcionários do Estado em geral, o dinheiro já não cai da árvore das patacas, como nos vossos tempos!
[ A Vivência de cidadão carregando uma vida a pagar impostos e a suportar esperas no SNS, de mais de 8 horas.]