"A república é, por definição, coisa de todos.
Mas em Portugal, a res publica tornou-se res partidária, e o bem comum, um slogan vazio em murais de campanha."

Em tempos idos, ser cidadão significava participar na construção do bem comum. Significava sentir que o hospital, a escola, a estrada, o tribunal — eram nossos. Não no sentido possessivo, mas no mais nobre sentido do dever partilhado.

Hoje, em Portugal, a realidade é outra: o bem comum está doente e a coisa pública foi capturada. E o mais trágico é que muitos já nem se dão conta — anestesiados por décadas de promessas não cumpridas, escândalos impunes e rotinas de frustração.


🎭 A Farsa da Gestão Pública

Ao longo das últimas décadas, a esfera pública foi-se esvaziando de sentido:

  • O Estado gere, mas não cuida.
  • Os partidos nomeiam, mas não responsabilizam.
  • As instituições existem, mas funcionam como simulacros.

Escolas onde o teto cai, hospitais sem médicos de família, tribunais com processos que se arrastam por décadas, obras públicas que se multiplicam em derrapagens milionárias, contratos secretos com consultoras e empresas de IT que drenam os cofres com projetos inacabados.

É o retrato de um país onde a coisa pública é tratada como coisa de ninguém — ou pior, como coisa de alguns.


💶 O Bem Comum Tornado Negócio

O conceito de bem comum, outrora sagrado, foi-se rendendo aos apetites do mercado, mascarado de modernização:

  • Concessões de autoestradas com rendas garantidas.
  • Água privatizada, mesmo em regiões onde escasseia.
  • Parcerias Público-Privadas em que o risco é sempre público e o lucro eternamente privado.
  • Sistemas de saúde paralelos: o SNS em colapso e os grupos privados a florescer.

E os cidadãos? Pagam impostos em silêncio, esperam na fila, e às vezes… morrem à espera.


🧱 O Desprezo pela Coisa Pública

Este estado de coisas não é apenas responsabilidade dos partidos. Há um problema cultural profundo:

  • Muitos portugueses não tratam o público como bem seu.
  • Há vandalismo nas escolas, lixo atirado nas ruas, agressões a profissionais de saúde.
  • Porque há uma sensação — amarga mas verdadeira — de que o público não é nosso, é dos "eles": políticos, burocratas, gestores intocáveis.

É o ciclo da indiferença: o povo afasta-se da coisa pública → a coisa pública degrada-se → o povo afasta-se ainda mais.


🤝 Uma Nova República: Reconstruir o Senso de Comunidade

Mas nem tudo está perdido. Ainda existem:

  • Funcionários públicos resilientes, que resistem à degradação e salvam vidas todos os dias.
  • Movimentos cívicos que lutam por justiça social, ambiental, fiscal.
  • Cidadãos conscientes que se levantam para exigir mais.

É possível reconstruir a coisa pública. Mas exige visão, coragem e ruptura com a lógica do favorecimento e da indiferença.


✊ 10 Propostas para Recuperar o Bem Comum

  1. Transparência total nos contratos públicos, com acesso online e universal.
  2. Orçamento Participativo Nacional, onde os cidadãos escolham onde aplicar parte dos impostos.
  3. Despartidarização da Administração Pública, com concursos reais e independência técnica.
  4. Reforma profunda das Parcerias Público-Privadas, com auditorias regulares e cláusulas de interesse público.
  5. Revalorização do serviço público — salários dignos, respeito profissional, proteção legal.
  6. Códigos de conduta e ética pública com sanções reais.
  7. Educação cívica séria e transversal, desde o 1.º ciclo até à universidade.
  8. Incentivos à economia do bem comum e aos empreendimentos sociais.
  9. Plataformas digitais de avaliação dos serviços públicos, com resultados publicados.
  10. Revisão constitucional com base na ética republicana e nos direitos coletivos.

🗣️ Epílogo de um Homem Pensante

"O bem comum é o sangue invisível de uma república viva.
Se ele seca, o corpo político adoece.
Se ele morre, o povo transforma-se em figurante no seu próprio país."

Portugal precisa de voltar a si mesmo. A acordar do torpor.
A coisa pública tem de ser resgatada ao abandono e à privatização informal.
Não como um regresso ao passado — mas como fundação de um novo contrato social, onde o cidadão volta a ser sujeito e não espectador.


Um Artigo de Francisco Gonçalves in Fragmentos de Caos

"Eles alimentam-se do povo e colocam-nos à margem."

A democracia portuguesa tornou-se um condomínio fechado, onde só entra quem tem cartão do regime.
A sociedade civil? É decorativa.
A crítica? Ignorada.
A lucidez? Silenciada.

— Fragmentos do Caos

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