Francisco Gonçalves

Portugal, país de sol, mar… e subsídios partidários. Num sistema político onde os votos valem dinheiro, os partidos tornaram-se empresas de capital eleitoral, e o povo, mais uma vez, o investidor involuntário.


1. A fórmula mágica: 50.000 votos

Basta um partido alcançar cerca de 50.000 votos em eleições legislativas e… voilà!

Abre-se o cofre do erário público:

  • Financiamento anual por cada voto obtido;
  • Reembolso de despesas de campanha;
  • Acesso a tempos de antena;
  • Direito a contratar assessores, arrendar sedes e pagar tachos — tudo com o selo do contribuinte.

2. A perpetuação dos oportunistas

Não interessa se o partido tem ideias, propostas ou utilidade.

Interessa é passar a meta mágica dos 50 mil. A partir daí, instala-se a máquina:

  • Empregam-se amigos, sobrinhos, cunhados.
  • Justificam-se fundos com cartazes que ninguém lê.
  • Criam-se estruturas fictícias que duram até ao próximo ciclo eleitoral.

"Partido político em Portugal? É como abrir uma start-up de subsídios."


3. O povo paga. E nem bufa.

Milhões são transferidos todos os anos para partidos — grandes, médios, pequenos e até minúsculos.

  • O contribuinte que ganha o salário mínimo paga a campanha do deputado que nunca viu.
  • O reformado sem aumentos financia cartazes vazios e propaganda inútil.
  • O jovem precário paga a sede do partido que não o representa.

E ninguém protesta. Porque ninguém explica. E a comunicação social finge que não é com ela.


4. Democracia? Ou esquema de financiamento automático?

Este modelo transforma a política num negócio de sobrevivência:

  • A missão deixa de ser servir o povo — passa a ser garantir a renda estatal.
  • E a criatividade política resume-se a conquistar o suficiente para não desaparecer do mapa dos apoios.

A cada eleição, assistimos ao desfile de listas recicladas, slogans ocas e promessas copiadas — tudo financiado com o dinheiro de quem vai votar sem saber que está a sustentar a farsa.


Conclusão: A fábrica partidária continua a laborar

Portugal é o único país onde partidos irrelevantes sobrevivem com financiamento garantido e onde os grandes vivem como organismos parasitas do orçamento do Estado.

"A democracia é a desculpa. O negócio é o voto."

Francisco Gonçalves

Como tão lucidamente perguntou Saramago, com aquele olhar atravessado pela verdade crua:

"É isto a democracia?"

Uma pergunta que ressoa como punhal subtil —
num país onde se confunde liberdade com marketing político,
onde o voto alimenta estruturas de poder fossilizadas,
e onde o cidadão serve para votar… mas não para decidir.

Saramago sabia que a democracia sem consciência é só uma encenação periódica,
um teatro com urnas, bandeiras e discursos —
mas onde o guião é sempre escrito pelos mesmos.

A verdadeira democracia começa quando essa pergunta deixa de ser retórica.
Quando alguém a escreve num muro.
Quando um povo a faz, em uníssono — e exige resposta.

FG.

✒ Porque razão escrevo e publico livremente?

Porque acredito que o pensamento deve ser partilhado, não aprisionado.
Escrevo para despertar, não para agradar.
Publico livremente porque o saber é um direito, não um produto.

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